Crianças-corvo

Criança-corvo_Patií

As crianças-corvo têm olhos negros e profundos.

Fitam o viajante nos olhos, da beira da estrada, com assustadora curiosidade.

“Não olhe”, advertiu o velho. “O olhar dessas criaturas fere como bico.”

“Não sei ao certo o que elas enxergam”, alongava, com o seu jeito pausado de dar nobreza às coisas, sem parar de apontar a estrada. “Mas quem teima em olhar fica cego rapidinho.”

A maneira como ele falava só aumentava a minha vontade de ver uma última vez aquelas medusas brotadas da seca.

“E não é o que cê qué, né?”

O velho me acordou no grito. E todo o resto ficou pra trás, como um pedaço de sonho.

Ilustração e inspiração onírica: Patií 

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Neo

– Meus olhos ardem.
– É porque…
– …eu nunca os usei antes?
– …o ar está muito seco.
– =(

O Stradivarius

Manhã chuvosa, cinzenta e com muito trabalho pela frente. Bóris, o revisor de guerra, atende o interfone e autoriza a entrada de alguém que se apresenta como uma cliente nova. “Mais uma tese de doutorado”, imaginou, enquanto abria a porta com muito má vontade.

“Prazer, Stanislava Kuznetsova.” Uma jovem de quase 1,90, bela e loira como uma tenista russa e mal coberta por um breve tubinho branco estendeu-lhe a mão. Na outra, carregava um estojo de instrumento musical pouco maior que o de um violino.

“Prazer, eu sou Bóris…”

“…o revisor de guerra. Recebi ótimas indicações de você.”

“Entre, por favor. Um café?”

“Obrigada. Vou direto ao ponto: gostaria que você decifrasse uma tatuagem.”

“Uma tatu…”

“Não é em mim. É nela”

Antes que a Srta. Kuznetsova terminasse de falar, do estojo aberto com um apertar de botão saiu outra moça, quase tão exuberante quanto ela, mas de dimensões anãs e completamente tatuada com dizeres de uma língua desconhecida.

“Ela é meu Stradivarius.”

Correria

– Fala, Cristian!

– Fala, Prattes!

– Como vão as coisas?

– Vou tocando a vida, correndo atrás, mas a coisa anda sinistra.

– Como assim?

– Não no pessoal. Digo no social. Estou muito revoltado com o que anda acontecendo. Tô muito puto com essa porra toda. Decidi tomar uma atitude.

– É mesmo?

– Sim. Não dá pra deixar barato. Vamos nos mobilizar. Botar pra quebrar. Mas a coisa tem que ser organizada, senão a gente se desmoraliza.

– Pode crer.

– Você é um cara que tem que participar. Cê continua com o mesmo celular?

– Sim. Há uns 20 anos.

– Então fechou. Vou te ligar. Mas não é pra amarelar, hein?

– Nem fodendo.

– Então falou. Vou correr, que tenho que fazer uns corres. Bom te ver.

– Eu que o diga!

– Fala, Prattes!

– Fala, Borba! Beleza?

– Beleza. E você?

– Beleza. Sabe quem eu vi? O Cristian.

– Nossa! Faz milano que não vejo o cara. E aí? Que que ele tá fazendo?

– O mesmo de sempre. Porra nenhuma.

Amizade

Amizade

Lembranças de viagem

Os policiais de Greg Lake City, Illinois, são figuras prussianas. Circulam em um Lamborghini alugado e jamais se apresentam de mãos vazias. Com um taser na esquerda e um algodão-doce na direita, abordam os cidadãos com rigor e distinção: “uma lambida ou um choquinho?”.
Greg Lake é uma pequena cidade ao sul de Apple Blossom, na macrorregião de Chicago, conhecida, entre outras coisas, pela crença bastante difundida entre sua população pacata e ordeira de que Bono Vox e John Lennon foram contemporâneos e companheiros em um conjunto de rock seminal.
Já o famigerado culto à ostra azul, por minoritário que seja, sempre ajudou a garantir a má fama do condado com suas práticas exóticas e celibatárias. E, a despeito do mau gosto, a lenda da aranha gigante também acrescenta um colorido ao lugar, assim como a imprevista estátua de Greg Lake.
Uma vez lá, deixe-se perder pelas inúmeras trilhas de terra que cercam a rarefeita área urbana do município, desfrute o ar puro perfumado pelos abetos, encante-se com os riachos cristalinos salpicados de carpas e preste atenção à fala melodiosa dos simpáticos moradores locais. E jamais, jamais, cometa a deselegância de observar que a bela e desproporcionada escultura de bronze batizada com o nome do patrono-fundador da cidade ostenta, tecnicamente, a figura de Robert Fripp. Tal deslize só é superado pela menção ao sórdido nome de Michael Kenyon, um pulha injustamente eternizado pela canção Illinois Enema Bandit, de Frank Zappa, que rendeu ao artista o título de persona non grata em Greg Lake City.

Caminhos

Quando ela cochichava no meu ouvido durante a aula, vinha um calor gostoso e eu sorria feito bobo.

Não importa o que ela dissesse.

Geralmente uma piadinha sem graça. Mas com ela ficava engraçado demais.

Em seguida vinha uma sensação mista de orgulho e vergonha, de tímido quando fala em público com atacante que faz o gol. Afinal, todo mundo estava me vendo em uma intimidade mal dissimulada com a garota mais linda do mundo. Pelo menos era o que eu achava.

Eu me via também, enquanto ouvia. Por alguns longos segundos eu era só sorriso, de orelha a orelha, com as mãos entrelaçadas escondidas entre as pernas (ainda bem que a carteira do colégio não deixava ninguém ver essa parte).

E ela, bom, era do jeito que é até hoje: linda, delicada, divertida…

Por onde ela anda hoje?

Por onde eu ando hoje?

Entrevista com um autor

– Há quem defina você como o grande machadiano da nova geração de escritores brasileiros…

– Não tão nova, mas eu concordo. Lendo Machado hoje e folheando ou passando o mouse nos trabalhos dos meus contemporâneos eu reconheço isso. Mas admito que é uma grande ironia, porque eu li muito pouco Machado na vida.

– É mesmo?

– Durante a minha formação, sim. Li alguns contos que caíram no vestibular da Fuvest em 94 e o Alienista. Isso antes de começarem a me chamar de machadiano. Depois dessa comparação exagerada acabei lendo tudo. Uma bosta. Mas tenho de admitir que nas partes boas parece os meus trabalhos menos inspirados. Curioso, não? Dois escritores de tempos distintos, sem conhecer o trabalho um do outro, podem ser artistas afins, nascidos de um molde, se não igual, parecido. Divirto-me imaginando nós dois em um mesmo movimento artístico. Talvez eu tivesse algum trabalho orientando e corrigindo o velho Machado, mas certamente valeria a pena.

– Muitos críticos, por outro lado, se enfurecem com a simples menção ao seu nome. “Romero Britto da literatura” é uma das associações menos insultuosas ao seu trabalho em alguns círculos literários…

– Bem lembrado! Se a gente tentar entender esse tipo de contradição, fica louco. Não é papel do artista. Eu sou apenas um escritor. Meu trabalho não é diferente da labuta de qualquer outro artesão. Eu semeio com verbos o solo caprichoso das ideias no afã de colher uma narrativa. Deixo as teorias pros críticos e tento brincar com as palavras como uma criança.

– Um comentário final?

– Você pode repetir aquela parte do machadiano? Achei bonito.

Tem uma perua escolar na frente de casa

Tem uma perua escolar na frente de casa.

Sábado. Férias escolares. Estranho.

Do outro da rua, outra van. Maior, branca.

Por que o rapaz do ponto tá virado pro prédio, não pra avenida?

Um trio de gordinhos atravessa a rua em uma diagonal perfeita.

Sombrio.

Os vizinhos de cima continuam provocando

Os vizinhos de cima continuam me provocando. É um casal com dois filhos entre cinco e sete anos. Todo dia por volta das dez da noite eles fazem um barulhão na hora de dormir. Eu sei que não são as crianças. Elas já dormiram faz tempo.

Como elas têm sono pesado, os pais continuam arrastando móveis, correndo, batendo portas, vendo desenho e até imitando voz de criança. Só pra rir da minha cara.

Minha namorada acha que eu estou viajando. Pra não envolvê-la, finjo que concordo.