Entrevista com o autor

– Há quem defina você como o grande machadiano da nova geração de escritores brasileiros…

– Não tão nova, mas eu concordo. Lendo Machado hoje e folheando ou passando o mouse nos trabalhos dos meus contemporâneos eu reconheço isto. Mas admito que é uma grande ironia, porque eu li muito pouco Machado na vida.

– É mesmo?

– Durante a minha formação, sim. Li alguns contos que caíram no vestibular da Fuvest em 94 e o Alienista. Isso antes de começarem a me chamar de machadiano. Depois dessa comparação exagerada acabei lendo tudo. Uma bosta. Mas tenho de admitir que nas partes boas parece os meus trabalhos menos inspirados. Curioso, não? Dois escritores de tempos distintos, sem conhecer o trabalho um do outro, podem ser artistas afins, nascidos de um molde, se não igual, parecido. Divirto-me imaginando nós dois em um mesmo movimento artístico. Talvez eu tivesse algum trabalho orientando e corrigindo o velho Machado, mas certamente valeria a pena.

– Muitos críticos, por outro lado, se enfurecem com a simples menção ao seu nome. “Romero Britto da literatura” é uma das associações menos insultuosas ao seu trabalho em alguns círculos literários…

– Bem lembrado! Se a gente tentar entender esse tipo de contradição, fica louco. Não é papel do artista. Eu sou apenas um escritor. Meu trabalho não é diferente da labuta de qualquer outro artesão. Eu semeio com verbos o solo caprichoso das ideias no afã de colher uma narrativa. Deixo as teorias pros críticos e tento brincar com as palavras como uma criança.

– Um comentário final?

– Você pode repetir aquela parte do machadiano? Achei bonito.

Tem uma perua escolar na frente de casa

Tem uma perua escolar na frente de casa.

Sábado. Férias escolares. Estranho.

Na frente outra van. Maior, branca.

Por que o rapaz do ponto tá virado pro prédio, não pra avenida?

Um trio de gordinhos atravessa a rua em uma diagonal perfeita.

Sombrio.

Os vizinhos de cima continuam provocando

Os vizinhos de cima continuam me provocando. É um casal com dois filhos entre cinco e sete anos. Todo dia por volta das dez da noite eles fazem um barulhão na hora de dormir. Eu sei que não são as crianças. Elas já dormiram faz tempo.

Como elas têm sono pesado, os pais continuam arrastando móveis, correndo, batendo portas, vendo desenho e até imitando voz de criança. Só pra rir da minha cara.

Minha namorada acha que eu estou viajando. Pra não envolvê-la, finjo que concordo.

Reputação

– Cara, eu acho superfake essa conversa de “não tô nem aí pro que falam de mim”.

– Você acha mesmo?

– Eu acho. Você não se preocupa com a sua reputação?

– Sim, mas não achei que você ligasse pra sua.

– Claro que eu ligo.

– Então eu tenho péssimas notícias pra você.

O pesadelo dos pés alheios

Adorava viajar, mas sofria muito com seus pés, sempre alheios.

Alheios a tudo. Natureza paradisíaca, museus estupefacientes, restaurantes sedutores, ramblas acalentadoras… Tudo que marejava seus olhos, hipnotizava seus ouvidos, embevecia seu nariz e coçava-lhe as mãos, imediatamente lhe despertava um formigamento, seguido de dor, nos pés. Lancinante, insuportável. A ponto de ele não conseguir sair do hotel. Às vezes nem do quarto, se o restaurante fosse muito bom ou demasiado agradável.

Coisa que só lhe acontecia em grandes viagens. Jamais em Embu.

É psicológico, diziam-lhe. Sem novidade, já que seu psicólogo viajava mais que ele, tal o pé de meia que esse bloqueio garantiu.

Não o culpava pelo insucesso na cura. Culpava-se mais que tudo. E, para isso, contratou outro psicólogo. Que, de quebra, atendia quando o outro estava viajando.

É psicossomático, também ouvia muito. É psicosseucu, pensava, enquanto respondia calidamente eu sei. Eu somatizo muito. Sempre fui assim. Devia ter me formado contador. Aproveitava para separar os amigos por essa piada. Os que riam, ele cortava.

Um dia decidiu rebelar-se. Saiu sem os pés. Ou apesar deles. Firmou-se com toda a força que tinha em cima da dor e saiu pisando-lhe. Quando a perna não respondia, ele puxava. E desceu as escadas, e andou pela pequena trilha do chalé até a estrada principal, e gritou para a família, que já saía. Esperem, eu vou junto. E foi. Seguiu, andou, conheceu, reconheceu, comeu, namorou, abraçou, gritou. Ficou feliz demais. Mal sentia os pés, mas nem queria mais saber se isso era bom ou ruim.

Quando voltava pro chalé junto com todos, no começo da noite, já não via a hora de ligar pra mãe a fim de contar a novidade. Mas não sem antes mandar um whats pro psicológo.

“Doutor,

Monte Verde conta?”

 

Nota do blogueiro: texto inspirado na chamada “Pés alheios: pior pesadelo em uma viagem de avião”, publicada pelo Uol Tablóide em 21/7/2017. Posteriormente, a chamada mudou para “Foto bizarra mostra o pior pesadelo de qualquer passageiro em um voo”

(Link: https://noticias.uol.com.br/tabloide/ultimas-noticias/tabloideanas/2017/07/21/foto-bizarra-mostra-a-pior-passageira-de-aviao-de-todos-os-tempos-pesadelo.htm)

Troca de figurinhas

Alcino escondia a surdez congênita com fones de ouvido.
Gostava de misturar-se em público, passar despercebido.
Alceu já tapava os ouvidos pra não ouvir nada mesmo.
Curtia seu som em paz e cultivava seu mundo ileso.
 
Quando ficaram face a face em um vagão de trem,
Alceu muito distraído, Alcino não, este abordou
aquele com um bilhete:
 
Quer trocar seus fones pela minha surdez?
Não, respondeu o outro no verso,
você já tem os seus, e muito melhores que este.
 
E você também já é surdo, replicou o Alcino,
Mas perdoe-me, acresceu.
Não é minha intenção ofender-te.
 
E não ofendeu.
Viraram bons amigos.
O Alceu amigo do Alcino,
e o Alcino amigo do Alceu.

Trate-me

Doutor,

Ando neurótico, sequelado.
Psicótico, esquizofrênico.
Paranóico, autista.
Depressivo, introspectivo, intimista.
Autoindulgente, exibicionista.
Perigoso perto de objetos pontiagudos,
chamas, quinas e esquinas.
Doutor, livre-me de todos os males,
antes que eu insista.
Mas, se for pedir demais,
trate-me tão somente
dessa porra dessa rima.

As férias do Belford

Belford passava as férias todas na Ponta do Escárnio.

Que, apesar do nome funesto, era um belo pedaço de terra. Avançado pro oceano em forma de península, mas alto e recortado como um fiorde, não atraía tanta gente quanto a restinga ao lado porque o mar acabava ficando longe.
Na verdade não atraía ninguém, só o Belford.
Quando entendeu o nome daquele acidente geográfico tão familiar, Belford achou curioso. Ironicamente, ali era o canto do planeta onde ele se sentia mais humano. Pena que ninguém aparecesse lá.

Sexta-feira,

– Por que é tão errático, indômito,
bravio, ainda que idôneo?
Sabe que foge da regra
do consumado bom senso
que acompanha tua idade?
– É que hoje é sexta-feira, dia de maldade.

Capitão Balão (crônica de um herói em extinção)

junho_patii

Cruzava os céus em noites de junho, com seu uniforme multicolorido, quase sempre em curso vertical.

Alguns diziam que ele tinha fogo no rabo. Eu sempre preferi chamá-lo de incendiário.