Um pouco de Vegas

Todo shopping center tem um pouco de Las Vegas. Você pode cometer qualquer obscenidade desde que esteja gastando dinheiro.

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Cê não entendeu nada, playboy

Por baixo do Viaduto Dr. Plínio de Queirós, passando pela calçada dos moradores de rua, ouço:

– Eu tenho fome…

– Você tem fome de quê? – questiono, por via das dúvidas.

– A gente não quer só comida. – Responde.

– A gente quer comida, diversão e arte. – Outro morador de rua completa.

– A gente não quer só comida. – Ele insiste.

– A gente quer saída para qualquer parte. – O companheiro dele acrescenta, enquanto um terceiro finaliza imitando o teclado.

Tudo isso com ritmo, afinação. Melhor que muita banda de baile.

– Caraca! Vocês podem repetir isso pra eu gravar? Se ficar bom, vocês ficam com o meu marmitex.

– Cê não entendeu nada, playboy.

Assim, morta no berço, encerrou-se minha carreira de produtor musical. E eles ficaram sem marmitex.

Bedtime to romance? (versão do diretor)

– Saudades.
– Te conheço?
– Ainda não. Mas eu sou muito nostálgico.
– Eita.
– Podemos corrigir isso pessoalmente?
– Adoraria estrear meu spray de pimenta.
– Acho que eu vou arriscar.
– Demorou. Onde?
– Topa um mexicano?
– Opa. Adoro!
– Mariachi, 20h30?
– Fechou!
– Não esquece do spray. 😉

Bedtime to romance

– Saudades.
– Te conheço?
– Ainda não. Mas eu sou muito nostálgico.
– Eita.
– Podemos corrigir isso pessoalmente?
– Adoraria estrear meu spray de pimenta.

Sua linda

– Sua linda!

– Linda é você. Você e sua família.

– Imagine. Você que é linda de verdade. E as suas crianças? Uma mais linda que a outra.

– Ah, mas as suas são muito mais. Você sempre teve a família mais linda de todas.

– Exagero seu. Até seu marido é lindo…

– Eu não meti marido no meio.

– Desculpa.

– Tá desculpada, sua linda.

– Linda é você.

O ÔVNI

– Um ovo. Se eu entendi bem a sua queixa, hoje a maior ameaça à segurança nacional é um ovo.

– Não é um ovo qualquer.

– É um ovo frito?

– É um ovo frito alienígena assassino. Está tudo neste relatório.

A doutora Myrtle Bustos compreendia e até se solidarizava com a incredulidade de Desmond Tucker, xerife do Condado de Brazoria, Texas. Não esperava outra reação. Se até os colegas da NASA custaram a acreditar nas advertências da respeitada astrônoma (os mesmos que nos últimos dias gastavam horas em entrevistas e debates nas grandes TVs americanas enquanto ela tentava convencer autoridades locais a contribuir com o Departamento de Defesa)…

Mas o relatório da NASA, chancelado pelo Departamento de Defesa, e as credenciais da dra. Bustos não davam chance para dúvidas, por mais indigesto e jocoso que o assunto pudesse soar.

Estava tudo lá, ilustrado com fotos, gráficos e até emojis. O que comoveu o xerife Tucker, contudo, foram os laudos dos legistas. O ovo, que já fora apelidado por David Letterman de ÔVNI, deixara um rastro de mortos entre o Deserto de Chihuahua, onde caiu diretamente do espaço, e o condado de Brazoria, em cujas fronteiras chegou em estágio bastante desenvolvido – 5 metros de diâmetro só de gema – levando tudo pelo caminho.

– O ovo alimenta-se basicamente de proteína animal viva. – Explicava dra. Bustos, usando a mesma síntese que repetia há semanas para xerifes broncos do Texas, sempre diante do mesmo olhar de desconfiança. – Quando encontra um ser vivo, ele suga toda a proteína e grande parte da água e sais minerais contidos em seu corpo em questão de segundos. Daí o estado das vítimas.

– A situação desses corpos é realmente lamentável. E esse gado todo? E os leitões? Quem vai pagar por isso? – A dra. Bustos sentia que começava a convencer o xerife Tucker.

– Além de ampliar sua forma a cada vítima, o ovo armazena parte da proteína que coleta em forma de grandes tiras de bacon. É parte de seu ciclo gastronômico-vital.

– E de onde veio essa praga?

– Não sabemos a origem exata, mas não é deste planeta. Entrou na atmosfera como um meteorito comum, exceto pela sua inédita aparência ovoide. Mas, diferentemente deles, não se desintegrou sob a força da pressão, apenas mudou de forma. Teve sua casca rompida, é fato, mas o interior, composto de uma clara e uma gema, cozinhou, ou melhor, fritou na pressão atmosférica.

– E como vocês da Nasa deixaram isso acontecer? Não podiam ter destruído esse monstro no espaço?

– A Nasa apenas observa e desenvolve pesquisas. Não temos recursos nem a prerrogativa de enfrentar nada, xerife Tucker. Até porque nunca houve uma ameaça.

– Como não? E Roswell? E o Hangar 18?

– Invenções da Guerra Fria para fazer os russos acreditar que sabíamos mais que eles.

– Puxa…

– Mas agora existe uma ameaça. E você pode salvar o país. Talvez a humanidade.

-Como? Quando? Amanhã era o meu dia de folga…

Sob o olhar severo da dra. Bustos, o xerife Tucker ouviu o chamado da história e decidiu que não tinha outra alternativa senão salvar o mundo. E escutou as explicações e o plano da pesquisadora.

– Após a fritura na atmosfera, o ÔVNI, como muitos o têm chamado, caiu no Deserto de Chihuahua, no Texas, com as dimensões de um ovo de galinha comum. Cresceu exponencialmente tão logo começou a se alimentar. Inicialmente de pequenos lagartos e ratos, depois coiotes, porcos, bois e homens.

– Quantas…?

– Vítimas humanas ele fez? Oitenta e cinco. A maioria fazendeiros, caronistas e caminhoneiros solitários. E um ônibus de fisiculturistas. Acreditamos que só a carga de whey-protein desse ataque seja responsável por 50% do tamanho atual da criatura.

– E o que eu posso fazer contra esse monstro?

– O que os seus colegas não fizeram: alertar a população. Todos devem ficar em casa. E os estabelecimentos têm de fechar as portas. Escolas, hospitais, tudo…

– Você tem ideia do que me pede? Sabe da responsabilidade envolvida em um alerta dessa proporção?

– Tenho plena consciência, xerife Tucker. Mas saiba: o que está em jogo é o mundo como o conhecemos.

– E depois…?

– Faça o alerta, que darei as intruções seguintes, xerife. O ovo já está no seu condado. Ele se move devagar. Mas não para nunca.

(…)

– Muitas vidas foram salvas por um mero acaso. – Prosseguiu a dra. Bustos após o alerta. – A trajetória do ovo não contemplou nenhum centro urbano. Não sabemos se as luzes e o barulho da cidade o espantam ou se foi uma eventualidade de traçado, mas a criatura optou por desertos, fazendas de gado e estradas secundárias do ponto em que caiu até o mar, que acreditamos ser o seu destino.

– ?

– Um ovo frito precisa de sal como nós precisamos de ar ou água. Ele tem sobrevivido com o sal dos seres vivos que cruzam seu caminho, mas não sabemos o que pode acontecer caso entre em contato com a água do oceano.

– Ele pode morrer?

– Quem dera. Anos de pesquisa no setor de hortifrutigranjeiros da Nasa me dizem o oposto. No mar, ele pode atingir proporções inimagináveis. A terra pode sobreviver a isso. A espécie humana dificilmente.

– E o que eu devo fazer?

– Reúna tropas, milícias, homens corajosos e faça uma barricada. Cerque o mar com caminhões e containers. E consiga sal. Um pequeno carregamento de sal de má qualidade. Precisamos distrair a criatura até que o Departamento de Defesa chegue com as armas definitivas.

– Que são?

– Caminhões frigorífico gigantes e canhões de nitrogênio líquido. O ovo deve ser congelado. É a nossa única esperança. Ele provavelmente perderá todas as propriedades organolépticas, mas a humanidade será salva.

Quando o chamado ÔVNI atingiu a região litorânea de Brazoria, o xerife Tucker conseguira cumprir parte de sua missão. Fechou toda a costa com homens e mulheres valorosos à frente de todo o tipo de sucata: caminhões, trailers, containers, colchonetes. Mangueiras de bombeiro reduziam a muito custo o avanço da criatura. As tentativas com fogo foram inúteis – a criatura apenas levantou bolhas na clara – de modo que só restava esperar pelas forças federais. Que chegaram completamente despreparadas. Nada de nitrogênio líquido. Apenas soldados, mísseis, helicópteros e um grande caminhão não refrigerado.

Os disparos incessantes que começaram daí em diante tiveram efeito semelhante ao das mangueiras de água: retardaram o avanço do monstro sem, todavia, feri-lo. O que podem armas de fogo contra um ovo?

A luta capiteanada pela dra. Bustos parecia apenas adiar o momento do seu fracasso quando o xerife Tucker assumiu de fato a liderança do contra-ataque. Tomou o megafone de um tal capitão Chris Martin, não sem antes desferir um bom soco texano no seu queixo arrogante. – No meu condado mando eu! – Ordenou um cessar fogo e atraiu, com um cristal de sal-marinho de 5 kg, a criatura para dentro do caminhão do exército. E lá ela foi aprisionada junto com o xerife Tucker, devorado instantaneamente com sal.

As lagrimas escorriam dos olhos da dra. Bustos. Apesar da euforia e da comoção geral diante daquele ato heroico de um grande americano, não era certo que o ovo estava bem contido. Seria levado por quilômetros de deserto – de Brazoria, Texas, até o Hangar 18 da Nasa – debaixo de sol escaldante, em um caminhão não refrigerado. Se frito ele causou tantas tragédias, o que esperar de um ovo mexido?

Íntimo

Não existe nada mais íntimo que um livro. Já vi um amigo falar as maiores obscenidades, abordar as intimidades mais constrangedoras, mas só tomar um tapa na cara ao perguntar que livro a garota lia.

James Dean mode

– Como você vai na festa de amanhã?

– Vou de James Dean.

– Uau! E a caracterização?

– Vou com a cara dele. O rosto, o olhar, o charme. Serei ele.

– Acho que não vai rolar.

– Não vou mais.

Festas a fantasia são tão difíceis…

De fininho

– Que que aconteceu que você sumiu ontem? Saiu correndo, sem se despedir. Cê tá bem?

– Tô ótimo. Tranquilo. É que eu saio assim mesmo, de fininho. Despedidas de balada são complicadas. Você começa trocar ideia e vai ficando. Da última vez que tentei me despedir da galera toda em uma festa como essa, tentando chegar cedo em casa, acordei 7 horas da manhã…

– Sei como é…

– Sabe? Isso foi 3 dias depois, em outro Estado, e preso. Fora a ressaca! Tive de negociar minha fiança com a juíza de São Gonçalo, aquela que foi assassinada pela milícia da baixada fluminense umas duas semanas depois, a Acioli. Eu não sabia por que, como nem quando tinha ido parar lá.  E não tinha grana pra fiança. Sorte que ela tinha outras preocupações. Despedidas de balada são complicadas.

Crianças-corvo

Criança-corvo_Patií

As crianças-corvo têm olhos negros e profundos.

Fitam o viajante nos olhos, da beira da estrada, com assustadora curiosidade.

“Não olhe”, advertiu o velho. “O olhar dessas criaturas fere como bico.”

“Não sei ao certo o que elas enxergam”, alongava, com o seu jeito pausado de dar nobreza às coisas, sem parar de apontar a estrada. “Mas quem teima em olhar fica cego rapidinho.”

A maneira como ele falava só aumentava a minha vontade de ver uma última vez aquelas medusas brotadas da seca.

“E não é o que cê qué, né?”

O velho me acordou no grito. E todo o resto ficou pra trás, como um pedaço de sonho.

Ilustração e inspiração onírica: Patií